Dona Nereide Branco Trofino leva quase 15 dias para produzir uma única peça bordada artesanalmente. Em um tempo em que os equipamentos computadorizados tomaram conta do mercado de bordados, ela não se assusta com a concorrência e faz questão de manter a tradição. Com quase 70 anos de idade (não revela a idade exata), ela passa oito horas por dia bordando em sua máquina de pedal e se diz viciada no trabalho desde que começou essa rotina, em meados da década de 1950.
Conta que se apaixonou pela atividade por acaso. No começo da adolescência, para preencher o tempo, Nereide começou a bordar. Inicialmente, à mão. Percebeu que tinha talento e não parou mais. Logo o pai comprou uma máquina, da marca italiana Necchi, a mesma que ela utiliza até hoje. E o dia a dia de dona Nereide a fez famosa pelas toalhas, caminhos de mesa, jogos de lençóis e tudo mais o que produzia.
Entusiasmada com o sucesso de seu trabalho, ela foi ampliando as encomendas. Logo comandava uma fábrica com cerca de 50 funcionárias. Além delas, a demanda era tanta que distribuía serviços para bordadeiras em um raio de 100 km em torno de Ibitinga. Dona Nereide ressalta que lojistas de todo o país vinham à cidade em busca de seus bordados. Ela ajudava os pais, irmãos e bancava parte do sustento da casa com o dinheiro que ganhava com o trabalho artesanal. “Graças ao bordado, Ibitinga viveu algo histórico. Naquela época, era a cidade com o maior número de mulheres que dirigiam”, orgulha-se ela. Aos 27 anos, a bordadeira sentiu necessidade de voltar para a escola. Foi para a 7ª série do ensino fundamental. Depois disso, decidiu cursar diversas faculdades, entre elas as de educação artística e desenho.
Com o passar do tempo, vieram as dificuldades. A atividade artesanal perdeu espaço para um novo tipo de bordado, o industrial. O que dona Nereide levava dias para produzir, as máquinas faziam em poucas horas. O sonho de viver do bordado teve que ser deixado de lado e ela foi dar aulas, porém, nunca abandonou o bordado.
Depois de anos longe do trabalho pelo qual é verdadeiramente apaixonada, em 2003, dona Nereide foi convidada para representar Ibitinga no Revelando São Paulo, uma espécie de concurso entre as cidades do Estado. Lá, ela teve a oportunidade de sentar em uma máquina e mostrar a qualidade de seu trabalho.
Em pouco tempo, a bordadeira já havia aceitado encomendas, como antigamente, e se via novamente diante de sua velha máquina de pedal. Para aguentar a jornada de trabalho diante da “amiga inseparável”, faz ginástica e musculação. Mas dona Nereide garante que o bordado é uma terapia diária, e que ainda não aprendeu a viver sem ele.


Posted in 
